Qual a relação entre maconha e esquizofrenia?

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Popularmente conhecida como maconha, a cannabisé uma planta que inclui três espécies diferentes: Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruberallis. Segundo dados de 2016 da OMS (Organização Mundial da Saúde), a cannabis é a droga ilícita mais utilizada no mundo, com mais de 180 milhões de usuários. Seus principais efeitos são relaxamento, euforia, alterações sensoriais e déficits de memória. As consequências do uso contínuo e prolongado da cannabis ainda não estão totalmente elucidadas, mas há diversas evidências indicando a existência de uma relação entre o consumo de maconha e o desenvolvimento de transtornos psicóticos como a esquizofrenia.

Cannabis sativa contém mais de 100 compostos diferentes conhecidos como canabinoides, sendo os mais abundantes o tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol. Esses compostos modulam o nosso sistema endocanabinoide, que tem receptores em neurônios GABAérgicos e glutamatérgicos presentes em áreas do cérebro relacionadas a cognição, emoções, memória e apetite. Os endocanabinoides são os canabinoides endógenos, ou seja, aqueles produzidos naturalmente no nosso organismo. Após serem sintetizados nos neurônios pós-sinápticos, eles difundem até a fenda sináptica, onde se ligam nos receptores CB1 presentes nos terminais de neurônios pré-sinápticos. A ativação desses receptores, seja por endocanabinoides ou pelo THC presente na maconha, tem efeito inibitório na atividade desses neurônios.

O THC e o canabidiol são formados a partir do mesmo precursor, o canabigerol, e por isso a cannabis com alto conteúdo de THC tem pouco canabidiol e vice-versa. A maior proporção de THC está relacionada com maior potência da planta, e essa proporção tem aumentado consideravelmente com novas técnicas de cultivo, como cruzamento de espécies e bloqueio da polinização. O fato de ser ilegal na maioria dos países incentiva o tráfico preferencial de variedades mais potentes, já que o mesmo efeito pode ser obtido com menor quantidade. Enquanto o THC é o principal responsável pelos efeitos psicoativos de alteração da consciência, o canabidiol parece exercer efeito protetor: quanto maior o conteúdo de canabidiol em relação ao de THC, menor o potencial de dependência e menor o risco de experiências psicóticas. Regular a quantidade de canabidiol portanto pode ser uma estratégia para tornar a maconha mais segura em países onde seu uso é legalizado. Diversas evidências sugerem que o consumo de cannabis de alta potência (mais de 10% de THC) é fator de risco para o desenvolvimento de transtornos psicóticos como a esquizofrenia, além de estar mais relacionado com dependência e déficits cognitivos e educacionais. Os usuários frequentes de cannabis de alta potência têm um risco 5 vezes maior de desenvolver transtornos psicóticos comparado com não usuários. Em pacientes já diagnosticados com esquizofrenia, o consumo pode piorar os sintomas da doença.

A faixa etária da exposição à maconha é uma variável importante, já que a adolescência é um momento crítico para a maturação de vários circuitos neuronais. Os canabinoides presentes na maconha podem atrapalhar a organização do cérebro principalmente durante esse período de desenvolvimento, o que está relacionado ao aparecimento de transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia. É por isso que fumar maconha antes dos 25 anos pode ser muito mais danoso do que fumar na vida adulta.

Além disso, vários genes estão envolvidos na relação entre consumo de maconha e esquizofrenia, o que faz sentido já que essa é uma condição de etiologia multifatorial, ou seja, é causada pela interação entre fatores genéticos e ambientais. Assim, indivíduos portadores de certas variantes genéticas que fumarem maconha tem maior predisposição para o desenvolvimento de transtornos psicóticos do que indivíduos não portadores – principalmente se for consumo frequente de maconha de alta potência durante a adolescência. Como nosso DNA não podemos mudar e o sequenciamento do genoma não é uma rotina, o que pode ser feito para prevenir o aparecimento de transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia é evitar a exposição a fatores de risco ambientais. Estima-se que de 8 a 24% dos casos de psicose em diferentes países poderiam ser prevenidos se o consumo pesado de maconha fosse evitado


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