Afinal, a maconha faz mal ou não?

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Com o crescimento da “cultura da maconha”, muitos acreditam que a droga oferece poucos riscos. Será?

Por: Ronaldo Laranjeira

 

Nos últimos anos, o movimento para legalização da maconha cresceu de forma considerável. Nos Estados Unidos, país que tem se destacado pela liberação de uso da droga para fins medicinais, metade dos estados já permite o uso da maconha medicinal, quatro deles também para uso recreativo, apesar de a lei federal proibir a droga. As justificativas são muitas — a queda de violência está entre elas –, mas o principal argumento utilizado em terras americanas é que a maconha ajuda a tratar diversas doenças. Com isso, está sendo criada mais uma indústria bilionária no país, que pode ultrapassar a marca dos onze dígitos por volta de 2020, segundo estimativas.
Como? Com a oferta dos mais variados produtos. Atualmente, os estados de Washington, Oregon e Colorado representam os maiores mercados de maconha recreativa nos Estados Unidos. Nesses locais, podem-se encontrar produtos como balas, chocolates e até biscoitos com a droga entre seus ingredientes. Mesmo nos estados em que sua comercialização é autorizada apenas para fins medicinais, como a Califórnia, produtos como vinho com Cannabis sativa em sua composição já são vendidos em farmácias.

Apesar desse recente movimento de liberação do consumo, o Drug Enforcement Administration (DEA), agência americana responsável pelo controle e combate de drogas, decidiu em agosto manter a maconha em uma lista de entorpecentes extremamente perigosos, flexibilizando apenas a legislação voltada para cultivo e pesquisa com propósitos científicos.
Na ocasião, o diretor do DEA, Chuck Rosenberg, divulgou um comunicado no qual afirmava que “não existe evidência de que haja consenso entre os especialistas qualificados de que a maconha é segura e efetiva para o uso na hora de tratar uma doença específica e reconhecida”. Rosenberg disse ainda: “Artigos recentes mostram de uma forma inquestionável que o consumo de maconha aumenta em muito o risco de os jovens desenvolverem doenças mentais. Do meu ponto de vista, essa geração que consome maiores quantidades de maconha do que a geração anterior pagará um alto preço em termos de aumento de quadros psiquiátricos”.
Afinal, a maconha é terapêutica ou prejudicial?

É importante pontuar uma questão: existe uma diferença entre fumar maconha e usar uma substância presente em sua composição para fins medicinais. Um exemplo disso é o canabidiol, componente da droga que pode ter um efeito terapêutico em doenças degenerativas ou para coibir convulsões. A comunidade médica é favorável sim ao uso terapêutico de substâncias como essa, o que é muito diferente de simplesmente apoiar o ato de fumar maconha, que contém centenas de outras substâncias, muitas nocivas ao organismo. Para se ter uma ideia, na década de 60, a concentração de tetraidrocanabinol (THC), responsável pelos efeitos provocados pela droga no organismo, era de 0,5% em média. Atualmente, esses níveis podem chegar até 30%, potencializando os efeitos nocivos da maconha ao organismo.
Diversos estudos demonstram que o THC afeta os sistemas vascular e nervoso central, alterando o funcionamento normal do cérebro e provocando diversas reações. Um estudo conduzido durante vinte anos pelo pesquisador Wayne Denis Hall, conselheiro da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicou que a droga se caracteriza por ser viciante (um em cada dez adolescentes que fumam maconha frequentemente se torna dependente), pelo comprometimento intelectual em usuários regulares (prejudicando atividades como estudos ou trabalho) e por dobrar o risco de desenvolvimento de doenças psíquicas, como esquizofrenia e síndrome amotivacional, uma doença muito similar à depressão, que provoca falta de motivação para realizar tarefas.

É seguro afirmar que existe hoje uma “cultura da maconha” sendo promovida, principalmente pela internet, apoiada por grandes investidores no mundo inteiro, que usam como base a maconha medicinal na tentativa de diminuir a percepção de risco associada ao uso da droga e, assim, obter grandes lucros, ao custo da saúde de milhões de pessoas. Apenas no Brasil, o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas estima que existam mais de 3 milhões de usuários de maconha. No mundo, a OMS estima que esse número ultrapasse a casa dos 181 milhões. A pergunta que fica ao analisar a questão é: vale a pena romantizar, promover a “cultura da maconha”, sendo que já temos o exemplo álcool e do tabaco, drogas legalizadas apesar dos malefícios à saúde? Devemos esquecer tudo que aprendemos, estudando essas psicoativas?
A psiquiatra e neurocientista Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos, costuma fazer uma análise muito interessante nesse sentido, que compartilho: muitas pessoas, durante sua adolescência, conseguem tomar bebidas alcoólicas e fumar cigarros, porque o acesso a esses produtos é relativamente simples. Quando adultas e tendo sofrido tal influência, essas mesmas pessoas se tornam propensas a utilizar drogas mais pesadas. Baseada em pesquisas e em sua experiência, a leitura de Nora é de que a exposição aos efeitos do cigarro e bebidas alcoólicas na juventude pode fazer com que as pessoas fiquem mais expostas a outras drogas e suas consequências à saúde.
Com tudo isso em mente, no final o mal pode até parecer sutil, mas nem de longe é.

 

 

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